O Jejum no Ramadān – O que o jejum significa? Por que jejuamos? E o que tiramos do jejum?

bismillah (1)

R 1

Todos os louvores são para Allāh, o Senhor de toda a criação. Que Allāh exalte o Mensageiro na mais alta companhia dos Anjos e lhe conceda paz; e igualmente, a sua família, seus companheiros e todos aqueles que realmente o seguem até o dia da ressurreição.

O jejum (Siyām em árabe) é o quarto pilar do Islām e Allāh fez obrigatório o jejum a esta Ummah, assim como ele o fez para as nações anteriores. Ele (o Altíssimo) declarou:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا كُتِبَ عَلَيْكُمُ الصِّيَامُ كَمَا كُتِبَ عَلَى الَّذِينَ مِن قَبْلِكُمْ لَعَلَّكُمْ تَتَّقُونَ

“Ó vós que credes, observai o jejum que é prescrito para vós assim como foi prescrito para aqueles antes de vós, para que vós possais tornardes piedosos.”[2]

Portanto, o jejum foi obrigatório para o povo no segundo ano após a Hijrah e o Profeta ﷺ jejuou nove meses do Ramadān antes de falecer ﷺ.

Siyām na língua árabe significa abster-se de algo, como falar, caminhar etc. Na terminologia religiosa, siyām é abster-se com intenção (niyyah) daquilo que quebraria o jejum por meio de ação ou violação espiritual, começando no tempo do verdadeiro amanhecer (Fajr) até o pôr-do-sol (Maghrib).

Se uma pessoa simplesmente se abstém de comer e beber, etc, sem intencionar isso para Allāh, isso não deve ser chamado de siyām no sentido religioso, embora seja linguisticamente siyām. Isto se deve ao dito do Mensageiro de Allāh ﷺ:

إنَّمَا الْأَعْمَالُ بِالنِّيَّاتِ وَإِنَّمَا لِكُلِّ امْرِئٍ مَا نَوَى فَمَنْ كَانَتْ هِجْرَتُهُ إلَى اللَّهِ وَرَسُولِهِ فَهِجْرَتُهُ إلَى اللَّهِ وَرَسُولِهِ وَمَنْ كَانَتْ هِجْرَتُهُ لِدُنْيَا يُصِيبُهَا أَوْ امْرَأَةٍ يَنْكِحُهَا فَهِجْرَتُهُ إلَى مَا هَاجَرَ إلَيْهِ

“As ações são baseadas em intenções e cada pessoa será recompensada de acordo com o que ele intencionava. Então, quem foi à migração para Allāh e Seu Mensageiro, sua migração foi para Allāh e Seu Mensageiro. Mas de quem quer que seja a migração para um ganho mundano ou para uma mulher com quem ele deseja se casar, sua migração é para o que quer que ele tenha migrado. ”[3]

Portanto, uma pessoa que se absteve de comida e bebida desde o início do verdadeiro amanhecer (Fajr) até o pôr-do-sol (Maghrib), mas não pretendia jejuar naquele dia, não é considerada jejum de acordo com a Sharī’ah, e ele não irá ser recompensado por isso, mesmo que ele que tenha se abstido de comer e beber.[4]

O jejum tem dois aspectos: o lado físico e o lado espiritual.

O aspecto físico é abster-se com intenção (niyyah) de comer, beber e ter relações sexuais. O aspecto espiritual é abster-se de caluniar, espalhar histórias, discutir rumores, xingar, falar com falsidade, mentir, usar linguagem obscena, observar o que é proibido (como filmes, pornografia etc.) e ouvir o que é proibido (como música, calúnia, etc.).

As violações espirituais reduzem ou diminuem a recompensa do jejuador e pode até deixá-lo sem recompensa alguma pelo seu jejum, pois ele está imerso em seus pecados. O mensageiro de Allāh ﷺ disse: “

Quem quer que não abandone as palavras falsas e o agir sobre eles, e o comportamento ignorante, então Allāh não tem necessidade de que ele se abstenha de sua comida e bebida.[5]

E ele ﷺ disse:

“O jejum não é apenas da comida e bebida, é também da fala vã e da conduta libidinosa.”[6]

Então, aquele que se abstém das violações físicas do jejum, mas não se abstém das violações espirituais não jejuou verdadeiramente na maneira que lhe foi requerida. É possível que tal pessoa não receba nenhuma recompensa pelo seu jejum, ou ele vem a receber menos recompensa de acordo com seus pecados. E esse é o significado do dito dos sábios:

“Uma pessoa deve abster-se das violações físicas e espirituais desde o segundo Fajr (verdadeiro amanhecer) até o Maghrib (pôr-do-sol).”

Ele deve ser ciente do entendimento da questão do Fajr (amanhecer) pois há dois amanheceres, ou seja, dois Fajrs. No começo do primeiro amanhecer [7], o jejum não começa, e comidas e bebidas não são proibidas e nem relações sexuais com a esposa.

Quanto ao segundo Fajr, então esse é a branquidão espalhada na linha do horizonte, e não há escuridão após ele, uma vez que começa. Allāh (o Altíssimo) disse a respeito:

وَكُلُوا وَاشْرَبُوا حَتَّىٰ يَتَبَيَّنَ لَكُمُ الْخَيْطُ الْأَبْيَضُ مِنَ الْخَيْطِ الْأَسْوَدِ مِنَ الْفَجْرِ ۖ

“E comeis e bebeis até que o fio branco do amanhecer apareça para vós distinto do fio preto.”[8]

Isso se refere ao segundo (verdadeiro) Fajr – e um muçulmano jejua até o pôr do sol (Maghrib). Então, uma vez que o sol se pôs no ocidente e a escuridão apareceu no oriente, o jejum chega ao fim de acordo com o dito de Allāh (o Altíssimo):

ثُمَّ أَتِمُّوا الصِّيَامَ إِلَى اللَّيْلِ

“Então completeis vosso jejum até o cair da noite.”[9]

E devido ao dito do Profeta ﷺ:

 “Se a noite aparecer daqui, e o dia terminar dali e o sol se pôr, o jejuador quebra seu jejum.”[10]

A sabedoria por trás do jejum é clara no dito de Allāh:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا كُتِبَ عَلَيْكُمُ الصِّيَامُ كَمَا كُتِبَ عَلَى الَّذِينَ مِن قَبْلِكُمْ لَعَلَّكُمْ تَتَّقُونَ

“Ó vós que credes, observai o jejum que é prescrito para vós assim como foi prescrito para aqueles antes de vós, para que vós possais tornardes piedosos.”[11]

O jejum previne a alma de seguir seus desejos e luxúrias, comer, beber e ter relações sexuais – pois essas coisas sobrecarregam a alma e fazem com que uma pessoa se torne negligente, desatenta e transgrida. Se uma pessoa está constantemente ocupada com comidas, bebidas e satisfazendo seus desejos, então isso irá leva-lo à ingratidão e transgressão, e a tornar-se negligente da lembrança de Allāh. Mas quando ele jejua, ele quebra a força dos seus desejos assim como seu desejo por comida e bebida – e isso restringe o caminho do Shaytān de chegar ao homem. O Shaytān flui através de uma pessoa como o fluxo de sangue, então o jejum restringe seu efeito e enfraquece sua força – e suaviza o coração dos crentes. É por essa razão que Allāh, o Altíssimo, disse: “para que vós possais tornardes piedosos.” Então, pelo jejum, ele adquire Taqwa (piedade) e percebe sua fraqueza e humildade diante de Allāh (o Altíssimo). Ele é lembrado da realidade de seu estado fraco, sua imensa necessidade de Allāh, Seus favores para ele e suas recompensas de comida, bebida e prazeres – aquilo que Allāh fez permissível para ele.

Então, quando uma pessoa sente algo da fome e da sede, ele é lembrado daqueles que são necessitados, que vão dormir em meio a fome e a pobreza e acordam neste estado, e isso causa no crente um senso de compaixão pelos outros.

O jejum possui muitas pérolas de sabedoria e numerosos benefícios. O Mensageiro de Allāh ﷺ disse em um ḥadīth qudsi que Allāh, o Altíssimo, disse:

“O jejum é para Mim e eu recompensarei o jejuador devido a isso, pois ele deixa seus desejos, sua comida e bebida por Minha causa. E o odor da boca do jejuador é melhor aos olhos de Allāh do que a fragrância do almíscar.”[12]

Então, mesmo que o odor seja repugnante para as pessoas, ele é amado por Allāh devido ao ato em si.

Essa é a excelência do jejum sobre o resto das ações – é um tremendo ato de adoração. É por essa razão que nós descobrimos que os predecessores virtuosos (Salaf) costumavam jejuar abundantemente com jejuns opcionais. Isso foi devido ao seu amor pelo jejum e amor pela busca da proximidade com Allāh, o Altíssimo. O Profeta ﷺ costumava jejuar abundantemente e ele jejuaria de tal maneira que seria dito: “Ele não cessará de jejuar.” E ele também pararia de jejuar de tal maneira que seria dito: “Ele não irá jejuar.”[13] Então, os predecessores virtuosos jejuavam frequentemente buscando proximidade com Allāh, aumentando em seu jejum no Ramaḍān – e isso era devido a seu conhecimento de que o jejum continha de benefício e excelência.

Allāh, o Altíssimo, fez obrigatório o jejum em todo o mês do Ramaḍān no seu dito:

شَهْرُ رَمَضَانَ الَّذِي أُنزِلَ فِيهِ الْقُرْآنُ هُدًى لِّلنَّاسِ وَبَيِّنَاتٍ مِّنَ الْهُدَىٰ وَالْفُرْقَانِ ۚ فَمَن شَهِدَ مِنكُمُ الشَّهْرَ فَلْيَصُمْهُ ۖ وَمَن كَانَ مَرِيضًا أَوْ عَلَىٰ سَفَرٍ فَعِدَّةٌ مِّنْ أَيَّامٍ أُخَرَ ۗ يُرِيدُ اللَّهُ بِكُمُ الْيُسْرَ وَلَا يُرِيدُ بِكُمُ الْعُسْرَ وَلِتُكْمِلُوا الْعِدَّةَ وَلِتُكَبِّرُوا اللَّهَ عَلَىٰ مَا هَدَاكُمْ وَلَعَلَّكُمْ تَشْكُرُونَ

“O mês do Ramaḍān no qual foi revelado o Qur.ān, uma orientação para a humanidade e provas claras para a orientação e o critério entre o certo e o errado. Então, quem quer de vós que vê a lua crescente na primeira noite do mês, ele deve fazer os jejuns por aquele mês. E quem quer que esteja doente ou em uma viagem [e não jejua], o mesmo número deve ser composto de outros dias. Allāh intenciona para vós a facilidade, e Ele não deseja fazer as coisas difíceis para vós. Ele deseja que vós completeis o mesmo número de dias e que vós magnifiques Allāh [quando o mês chega ao fim] por ter-vos orientado, para que possam ser agradecidos a Ele.”[14]

Então, Allāh, o Altíssimo, obrigou fez obrigatório o jejum no mês do Ramadān para todo muçulmano são e adulto que está de boa saúde e residente – e deu uma tolerância para a pessoa doente e para o viajante para que eles possam quebrar seus jejuns e refazer o que eles perderam depois nos outros dias do ano. Então, jejuar no Ramadān é obrigatório seja jejuando durante o mês ou recuperando-o depois[se a pessoa tem uma justificativa da Sharī’ah].

[1]Estas notas são baseadas principalmente na explicação do Bulūgh Al-Marām min Adillatil-Ahkām de Al-Hāfidh Ibn Hajr (rahimahullah) pelo Al-‘Allāmah Dr. Sālih Al-Fawzān(que Allah o preserve) intitulado, Tas-heel Al-Ilmām bi-Fiqhil-Ahādeeth min Bulūgh Al-Marām, vol. 3.

[2] Al-Baqarah 2:183.

[3] Bukhāri, n. 1, Muslim, n. 1907.

[4] Similarmente, pode ser dito para a pessoa que se abstém da comida e da bebida para o propósito da perda de peso e sem a intenção de jejuar religiosamente. Porém, aquele que jejua pela causa de Allāh como um ato de adoração, e também espera perder peso como uma consequência e para melhorar sua saúde, então essa pessoa jejuou corretamente e é recompensada pelo seu jejum.

[5] Al-Bukhāri (n. 6057), de Abu Hurayrah (radiyallāhu ‘anhu).

[6] Al-Hākim (1/430-431) e ele o classificou como sahīh; Al-Bayhaqi (4/270), de Abu Hurayrah (radiyallāhu ‘anhu).

[7] Também conhecido como falso amanhecer ou falso Fajr (al-fajr al-kadhūb).

[8] Al-Baqarah: 187.

[9] Al-Baqarah: 187.

[10] Al-Bukhāri (n. 1954), Muslim (n. 1100).

[11] Al-Baqarah 2:183.

[12] Bukhāri (n. 5927), Muslim (n. 1151).

[13] ‘Ā’ishah (radiyallāhu ‘anhā) disse: O mensageiro de Allāh jejuava tão frequentemente que nós dizíamos, ‘Ele não parará’ e ele parava de jejuar de maneira que nós dizíamos, ‘Ele não irá jejuar’. Eu nunca vi o mensageiro de Allāh (salallāhu ‘alaihi wasallam) completar um mês inteiro em jejum exceto pelo Ramadān e ele nunca jejuava tanto quanto ele jejuava em Sha’bān.” (Relatado por Bukhāri e Muslim)

[14] Al-Baqarah: 185.

Tradução: Hamzah Vieira

Texto original: https://www.abukhadeejah.com/fasting-in-ramadan-what-does-it-mean-why-do-we-fast-what-is-gained/#_ftn5

Texto escrito originalmente por: Abu Khadeejah ‘Abdul-Wahid

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